Saúde financeira e contábil
Caixa, margens, lucro e os conceitos contábeis que sustentam o negócio.
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Margem bruta
A margem bruta é a parcela da receita que sobra depois do custo direto de entregar o serviço: (receita menos COGS) dividido pela receita, em percentual. Em SaaS puro costuma ficar entre 70% e 85% ou mais, e é essa folga que sustenta o modelo, alimenta o LTV e permite reinvestir em crescimento.

COGS
COGS (Cost of Goods Sold) é o custo direto de entregar o serviço de um SaaS: hospedagem e infraestrutura, suporte ao cliente, taxas de terceiros e de processamento de pagamentos. Não inclui vendas, marketing e P&D, que são OPEX. É a base da margem bruta: receita menos COGS é igual ao lucro bruto.

Lucro bruto
O lucro bruto é a receita menos o COGS, o custo direto de entregar o produto ou serviço. É a primeira linha de lucro da DRE, apurada antes das despesas operacionais, dos juros e dos impostos. Dividido pela receita, dá a margem bruta, que no SaaS costuma ser alta porque o custo de servir cada cliente adicional é baixo.

Margem de contribuição
A margem de contribuição é a receita menos os custos variáveis, medida por unidade ou no total. É o que sobra de cada venda para cobrir os custos fixos e, depois disso, virar lucro. Diferente da margem bruta, que desconta todo o COGS, ela isola apenas o que varia com o volume, e por isso é a base do ponto de equilíbrio e das decisões de preço.

Margem operacional
A margem operacional é o lucro operacional dividido pela receita: quanto sobra de cada real de receita depois de pagar o custo do serviço (COGS) e as despesas operacionais (OPEX), antes de juros e impostos. Ela mede a rentabilidade da operação em si, sem o efeito de estrutura de capital ou tributos. No SaaS, é a componente de lucratividade que se soma ao crescimento na Rule of 40.

EBITDA
O EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) mede o resultado que uma empresa gera das suas operações, antes das decisões de financiamento, tributação e contabilização de investimentos passados. Parte do lucro operacional e soma de volta a depreciação e a amortização, aproximando a geração de caixa operacional e permitindo comparar empresas com estruturas de capital diferentes. Não é fluxo de caixa: ignora capex e variações de capital de giro.

Lucro líquido
O lucro líquido é a última linha da demonstração de resultados, o chamado bottom line: o que sobra da receita depois de descontar todos os custos, despesas operacionais, juros e impostos. É o lucro contábil final da DRE, diferente do caixa (por seguir o regime de competência) e do EBITDA (que exclui juros, impostos, depreciação e amortização). Muitos SaaS em crescimento operam com lucro líquido negativo enquanto reinvestem para capturar mercado.

Ponto de equilíbrio
O ponto de equilíbrio (break-even) é o nível de receita ou de unidades vendidas em que o resultado da empresa é zero: a receita cobre exatamente todos os custos. Em unidades, é igual aos custos fixos divididos pela margem de contribuição unitária. Acima dele cada venda gera lucro; abaixo, prejuízo, e por isso alcançá-lo é o marco que liberta a startup da dependência de caixa externo.

Fluxo de caixa
Fluxo de caixa é a diferença entre o dinheiro que entra e o que sai de uma empresa num período. Divide-se em operacional, de investimento e de financiamento, e não se confunde com lucro: o caixa é o que de fato passa pela conta. Em SaaS, cobrar contratos anuais à vista adianta caixa em relação à receita reconhecida.

Fluxo de caixa livre
Fluxo de caixa livre (FCL) é o caixa que sobra da operação depois de pagar os investimentos em capital (capex). É o dinheiro realmente disponível para quitar dívidas, remunerar investidores ou reinvestir no crescimento. Um SaaS que gera FCL positivo se autofinancia e depende menos de captar rodadas.

Burn rate
O burn rate é a velocidade com que uma empresa consome seu caixa, quase sempre medida por mês. O burn bruto soma todo o dinheiro que sai; o burn líquido desconta a receita que entra e mostra o que de fato queima do caixa. É o denominador do runway: quanto menor o burn, mais tempo a startup tem antes de precisar de novo capital.

Runway
Runway (cash runway) é por quantos meses uma empresa consegue operar com o caixa que tem, mantido o ritmo atual de queima de caixa. Calcula-se dividindo o caixa disponível pelo burn líquido mensal, e define a urgência de captar ou de chegar ao break-even. É o fôlego financeiro que dá tempo para a empresa acertar a rota.

Capital de giro
Capital de giro é o ativo circulante menos o passivo circulante: os recursos de curto prazo que uma empresa tem para tocar a operação do dia a dia. Ele mostra se as contas a receber, o caixa e o estoque cobrem as obrigações que vencem nos próximos meses. Em SaaS, cobrar antecipado e pagar fornecedores depois pode gerar capital de giro negativo, e nesse modelo isso costuma ser sinal de saúde, não de aperto.

OPEX / CAPEX
OPEX (despesas operacionais) são os gastos recorrentes do dia a dia, como salários, marketing e nuvem, lançados como despesa no próprio período. CAPEX (investimento de capital) é o dinheiro colocado em ativos duradouros, capitalizado no balanço e depreciado ao longo dos anos. A diferença muda quando e como cada gasto aparece na DRE e no fluxo de caixa, e o SaaS moderno é quase todo OPEX.

Unit economics
Unit economics é a economia de uma única unidade de um SaaS, que costuma ser um cliente ou uma conta: quanto essa unidade gera de receita e de margem ao longo de toda a relação versus quanto custa adquiri-la e servi-la. O par central é o LTV contra o CAC, com razão saudável acima de 3, somado ao tempo de payback do CAC. Unit economics saudável é o que permite crescer sem queimar caixa indefinidamente.

Valuation
Valuation é a estimativa de quanto vale uma empresa num dado momento. Em SaaS, o atalho mais comum é um múltiplo sobre o ARR, e esse múltiplo sobe ou desce conforme crescimento, retenção e eficiência, sintetizados na Rule of 40. O valuation também define quanto de equity um investidor recebe pelo seu aporte, distinguindo pre-money (antes do cheque) de post-money (depois).

Cap table
O cap table, ou tabela de capitalização, é o registro de quem possui o que numa empresa: fundadores, investidores e o pool de opções dos funcionários, somando sempre 100%. Ele lista ações, percentuais e classes de ações, e é reescrito a cada rodada de investimento, quando o novo aporte dilui os sócios existentes. É a base para negociar valuation e term sheet.

Diluição
Diluição é a redução do percentual de participação dos sócios quando a empresa emite ações novas, tipicamente numa rodada de investimento ou ao criar o pool de opções. Você fica com uma fatia menor de um bolo idealmente maior. Somada ao longo das rodadas, a diluição define quanto os fundadores ainda detêm no fim.

SAFE
SAFE (Simple Agreement for Future Equity) é o contrato de investimento criado pela Y Combinator em que o investidor aporta capital agora e converte esse valor em participação societária numa rodada futura precificada, sem fixar o valuation na hora. Usa um cap de valuation e/ou um desconto para recompensar o risco de ter entrado cedo. Não é dívida: não tem juros nem data de vencimento.

Term sheet
Term sheet é o documento, em geral não vinculante, que resume os principais termos de uma rodada de investimento: valuation, valor do aporte, participação, preferência de liquidação, direitos de voto e governança. Ele serve de base para os contratos definitivos e alinha as expectativas antes da due diligence. Ler além do valuation é essencial, porque as cláusulas econômicas e de controle pesam tanto quanto o número da manchete.

Down round
Um down round é uma rodada de investimento captada a um valuation menor que o da rodada anterior. Sinaliza que o mercado ou o desempenho não sustentaram o preço antigo, dilui mais os sócios e pode acionar cláusulas anti-diluição. Ainda assim, às vezes é a alternativa racional a ficar sem caixa, especialmente quando o runway aperta e o valuation anterior foi esticado demais.